NANUQUE TEM POPULAÇÃO, VOTOS E LIDERANÇA: POR QUE AINDA NÃO ELEGEU UM DEPUTADO?
A vizinha cidade de Carlos Chagas, com metade da população, elegeu o federal Rodrigo Tavares
Está reacesa uma pergunta incômoda para Nanuque: o que falta para transformar peso regional em representação política própria? A resposta pode envolver articulação, continuidade e uma decisão estratégica do prefeito Gilson Coleta

A comparação chama atenção. Pelo Censo de 2022, Nanuque tinha 35.038 habitantes, enquanto Carlos Chagas tinha 18.615 — pouco mais da metade. Ainda assim, Carlos Chagas foi o município onde Rodrigo Tavares, filho do atual prefeito, recebeu sua maior votação: 4.560 votos. Ele foi eleito deputado federal por Minas Gerais com 37.534 votos no estado.
Mas há uma distinção importante: em eleições proporcionais, uma cidade não “elege” sozinha um deputado. A vaga depende do desempenho da candidatura e do partido ou federação em todo o estado.
A votação em Carlos Chagas deu visibilidade à força local do candidato, mas sua eleição foi resultado do conjunto estadual de votos. Inclusive, em Nanuque ele foi o terceiro federal mais votado, com 1.542 votos. Ainda assim, o caso oferece uma lição política: uma base municipal organizada, somada a alianças e presença em outras cidades, pode fazer a diferença.
NANUQUE NUNCA TEVE UM DEPUTADO
A pergunta para Nanuque, portanto, talvez não seja simplesmente por que a cidade “nunca teve um deputado”. Essa afirmação exigiria uma pesquisa histórica detalhada e também depende do que se entende por representante da cidade: alguém residente ou eleito com forte base local. A questão mais produtiva é outra: por que Nanuque ainda não consolidou uma liderança parlamentar que tenha a cidade e a região como centro permanente de sua atuação?
A ciência política ajuda a explicar o desafio. População, por si só, não se converte automaticamente em representação. É preciso coordenação: partidos que apostem em candidaturas competitivas, lideranças que construam alianças regionais, eleitores que reconheçam interesses comuns e um candidato capaz de manter presença para além do período eleitoral. Sem essa articulação, os votos locais podem se dispersar entre muitos nomes — e a cidade acaba contribuindo para eleger representantes cuja prioridade política está em outros territórios.
GILSON DEPUTADO: É POSSÍVEL?
É nesse cenário que aparece o nome do prefeito Gilson Coleta. Eleito prefeito em 2020 com 37,28% dos votos - total de 6.942 votos, foi reeleito em 2024 com 13.996 votos, mais que o dobro, equivalentes a 68,71% dos votos válidos. Foi uma demonstração expressiva de apoio nas urnas municipais.
MAS NÃO É SÓ ASSIM - Esse resultado, por si só, não garante uma eleição estadual. Mas oferece capital político e uma estrutura de relacionamento que poderiam ser usados para discutir um projeto de representação regional — desde que acompanhados por trabalho, alianças e propostas concretas para Nanuque e os municípios vizinhos.
Uma eventual “dobradinha” com um deputado federal poderia ser parte dessa estratégia, desde que não se resumisse a um acordo eleitoral. Para ter sentido público, precisaria resultar em compromissos verificáveis: defesa de investimentos, articulação por recursos, acompanhamento de obras e presença regular no Vale do Mucuri. Representação política não é apenas obter votos, é manter canais abertos e prestar contas sobre o que foi feito.
Há também um horizonte eleitoral possível. Como Gilson Coleta foi reeleito para o mandato de 2025 a 2028, não poderá disputar uma terceira eleição consecutiva para prefeito em 2028. A eleição de 2030 para deputado estadual poderia, em tese, ser uma alternativa, respeitadas as regras eleitorais e as decisões pessoais e partidárias do prefeito.
Os dois anos entre o fim do mandato municipal e essa disputa permitiriam preparar uma plataforma regional — mas também exigiriam que a intenção fosse debatida com a população, e não apenas tratada como cálculo de bastidores.
A oportunidade está posta, mas a cobrança também. Se Nanuque quer ampliar sua voz na Assembleia Legislativa ou no Congresso, precisa transformar tamanho populacional em organização política duradoura. Gilson Coleta tem votação e visibilidade para participar dessa conversa. Cabe a ele dizer se pretende assumir essa missão — e, principalmente, apresentar um projeto que mostre como uma candidatura sua representaria não apenas um nome, mas as demandas de Nanuque e de toda a região.
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